por: Maraísa Ribeiro - Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009 às 19:34
A primavera se estende além do litoral, mar adentro, com a migração Quem planeja uma lua-de-mel inesquecível, logo pensa num paraíso: ilhas isoladas, banhadas por águas calmas, claras e calientes, tonalidades de mar do verde ao azul turquesa... Se, para você, esse cenário romântico é o sul da Bahia, saiba que não estará sozinho! Não entre julho e novembro, quando certamente terá a companhia de mais de uma centena de casais de baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). À vontade para o 'namoro', elas não fazem a menor questão de esconder o clima romântico. E a cada ano chegam em maior número - de 1.500 a 1.800 baleias - ao Banco de Abrolhos, localizado a 33 milhas (cerca de 70 km) da costa, a partir do porto da cidade de Caravelas, na Bahia.
Cosmopolitas, elas vêm do Oceano Antártico e enfrentam uma viagem de três meses para chegar ao lugar que elegeram como o melhor ponto do Atlântico Sul Ocidental para o acasalamento e também como berçário ideal para os primeiros meses de vida de seus filhotes. A viagem da turista mais freqüente de Abrolhos não é motivada apenas pela beleza cênica das cinco ilhas do arquipélago. As jubartes migram todos os anos para a Antártica para se alimentar e, de volta às águas tropicais, para se reproduzir. Durante o verão do Hemisfério Sul, o Oceano Antártico oferece banquetes às baleias e outros animais de grande porte. O aumento da temperatura e os dias mais longos aceleram a produtividade da microflora e microfauna marinha - o chamado fito e zooplâncton - e asseguram a multiplicação de um alimento essencial às baleias: o krill (Euphausia superba). Parecido com um camarãozinho transparente, ele vive em imensos aglomerados, nos mares frios, fazendo a festa das baleias de barbatanas que os abocanham com água e tudo, filtrando de volta apenas a água.
A comilança chega a números incomparáveis. As baleias necessitam dois a três por cento do seu peso em alimentos por dia. Ou seja, uma única jubarte de 40 toneladas chega a comer de 800 a 1.200 kg de krill diariamente! A temporada gastronômica deve ser intensamente aproveitada, pois quando as baleias deixam a Antártica, as refeições vão rareando. A grossa camada de gordura acumulada nos banquetes, além de garantir o isolamento térmico, serve como reserva energética no longo período de 'jejum' da fase migratória e são essenciais para a reprodução. Com a chegada do outono, o alimento logo fica escasso e as baleias fogem das baixas temperaturas, que no inverno alcançam menos 29oC. E é a temperatura da água na costa brasileira - média de 25,5oC - que atrai os casais preocupados com os futuros filhos. A preocupação com a temperatura da água tem um motivo justo: as camadas de gordura, que as protegem do frio, são pouco espessas quando os filhotes nascem. Dificilmente eles resistiriam ao rigoroso inverno antártico, mesmo com o leite denso e forte das mães, do qual sugam pelo menos 200 litros por dia!
Outro detalhe importante que atrai as jubartes para o Banco de Abrolhos é a profundidade média de 20 metros. Nos primeiros meses de vida, a mãe deve ajudar o filhote a respirar, levando-o à superfície. Por isso, precisa de águas tranqüilas e rasas. Isso, sem esquecer que em mares quentes os bebês estão mais seguros, longe das orcas (Orcinus orca), suas predadoras naturais.
A alta temporada de nascimentos se concentra nos meses de agosto e setembro. Os filhotes nascem com 3 metros e pesam em torno de 3 toneladas. Acompanham a mãe durante mais de um ano e, só depois de desmamar, ela tem direito a uma nova lua-de-mel. Viaja então em busca das águas quentes e calmas para acasalar e mais uma vez retorna à Antártica, para enfrentar os onze meses de gestação. Cada fêmea tem um único filhote, em intervalos médios de 3 anos, o que explica a dificuldade da população se recuperar, mesmo depois de proibida a caça à baleia.
A jubarte ainda hoje está classificada como vulnerável pela União para a Conservação Mundial (IUCN) e pelo Plano de Ação para Mamíferos Aquáticos do Brasil. Ela está entre as espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção, listadas pelo Ibama. A população mundial, antes da caça, era estimada em 150 mil baleias. Hoje não passa de 25 mil. Em 1987, a caça à baleia foi proibida no Brasil. Aos poucos foi aumentando o número de pessoas que reconhecem o grande valor econômico das baleias vivas, como fonte de renda para o turismo. E surgiram as primeiras experiências de observação como atividade comercial, além de ter crescido exponencialmente o interesse da população em conhecer projetos de pesquisa.
O aumento do turismo de observação das baleias mobiliza organizações não governamentais, órgãos públicos e moradores do litoral baiano. A histórica "Costa do Descobrimento" conquistou outro título, o de Costa das Baleias. Da cidade de Prado a Nova Viçosa, passando por Caravelas, as embarcações deixam os portos toda semana, levando visitantes ávidos por um encontro com as jubartes.
Embarcamos num desses cruzeiros, na escuna de nome Tomara, com 15 metros de comprimento, usada nas viagens de pesquisa do Projeto Baleia Jubarte. O barco deixa o porto de Caravelas com lotação completa, mais o mestre Ubirajara dos Santos, o Bira; os tripulantes Wilson Costa e Paulo César da Silva Souza; estudantes de biologia vindos de diferentes regiões do Brasil e que participam do projeto como estagiários; a coordenadora de cruzeiro do Projeto Baleia Jubarte, Maria Luiza Mota Pacheco de Godói e o ecovoluntário Mauro Ladeira.
E foi só passar pelo canal, entre o Parcel das Paredes e a ilhota Coroa Vermelha, apontando a proa na direção de Abrolhos - baleia à vista! A coordenadora Luiza dá início ao trabalho de amostragem. A fotógrafa Graciela Fiuza vai para a proa da embarcação. Gritos de ordem, orientação de direção ao mestre Bira, informações para serem registradas na ficha diária do cruzeiro. A movimentação aumenta na medida em que vamos nos aproximando dos borrifos vistos ao longe. Os Jatos de água projetados pelas baleias, na verdade, são sinais da respiração, o ar expelido que se condensa em contato com a atmosfera.
A visão de dois borrifos e, em seguida, duas nadadeiras dorsais animam ainda mais o grupo. Encontramos o nosso primeiro par romântico. O tamanho impressiona grandes adultos em plena maturidade sexual. A fotógrafa Graciela não perde um lance, especialmente quando os dois namorados, num movimento combinado, mostram as nadadeiras da cauda. As fotos serão usadas para a identificação das baleias, que apresentam diferenças de cor e no formato da cauda. É como uma impressão digital. Esses dois adultos que acabamos de avistar são considerados padrão cinco, porque a cauda é preta. Outras têm manchas brancas naturais, que mudam muito pouco. Então, temos subgrupos, variando do totalmente branco ao totalmente preto. E conseguimos identificar esse indivíduo ao longo dos anos, explica Luiza, que também é pesquisadora do Projeto Baleia Jubarte.
A máquina fotográfica e o computador são as principais ferramentas desse trabalho, iniciado em 1988. Graciela fotografa em todos os ângulos e depois copia as imagens no computador. É dessa forma que o Projeto Baleia Jubarte conseguiu montar um dos maiores bancos de dados da espécie no Hemisfério Sul, com 2.500 indivíduos registrados. Com esse trabalho podemos traçar a história de vida da baleia: quantas vezes ela veio para Abrolhos, se teve filhotes e quantos. Podemos fazer uma estimativa populacional e descobrir quantas jubartes estiveram aqui durante a temporada, acrescenta à coordenadora.
A etapa seguinte complementa o trabalho de pesquisa do cruzeiro. A estagiária Luciana Garrido se dirige à proa do barco trazendo nas mãos uma balestra, uma antiga arma com arco, cabo e corda, que dispara setas. Mestre Bira começa a aproximação, permitida somente neste caso, para coleta de material para análise genética. A pontaria deve ser perfeita, quanto menor o tempo gasto, menos o animal será perturbado.
A seta colorida é encontrada com facilidade, boiando no mar de águas calmas. Luciana retira da ponteira e separa a pele da gordura. O material é guardado para análise em laboratório. A pele do animal pode determinar o sexo e fornecer dados sobre parentesco dos indivíduos. Já a gordura é usada para se detectar a presença de agentes contaminantes.
A escuna Tomara volta a navegar em direção a Abrolhos e o grupo segue 'baleando'. É o termo utilizado nas embarcações de turismo e pesquisa, quando saem à procura destes que são os maiores animais vivos do planeta. O farol da Ilha de Santa Bárbara já iluminava o Arquipélago de Abrolhos, quando lançamos a âncora.
A ficha diária, preenchida pelas estagiárias, registra: no primeiro dia de cruzeiro navegamos um total de 55 milhas, foram avistadas 12 baleias, seis delas fotografadas e identificadas, com uma biópsia realizada. O trabalho ainda prossegue por muitos dias, mas presenciar pelo menos parte dessa história é um privilégio e, sem dúvida, uma grande emoção!
Uma mãozinha para a pesquisa
Não é a primeira vez que Marcos Ladeira, 33 anos, advogado, solta as amarras que o prendem à maior cidade do Brasil - a capital de São Paulo - para lançar âncora nos mares do Sul da Bahia.
Este ano, ele reviveu a experiência de navegar com as baleias jubarte de um jeito bem diferente, ainda pouco usual no Brasil: através de um programa de ecovoluntariado.
Em 1997, interessado pela vida desses grandes mamíferos, ele descobriu que o Projeto Baleia Jubarte abria a possibilidade de pessoas comuns participarem dos cruzeiros de pesquisa, pagando um pacote de uma ou duas semanas.
Gostou da experiência e a repetiu, sete anos depois: tirei uma semana de folga e acho que é uma oportunidade muito boa de conhecer o trabalho de biólogos e pesquisadores e conviver com estes animais aos quais a gente não tem acesso, só mesmo aqui, comenta.
Cada cruzeiro pode levar, no máximo, três ecovoluntários. O preço é de R$ 940,00 ou R$ 1.600,00, por uma ou duas viagens. O pacote inclui a supervisão e orientação do novato nos trabalhos; entrada no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos; estada em hotel em Caravelas no pernoite; acomodação e pensão completa nos dias do cruzeiro de pesquisa.
O objetivo do programa não é turístico. O Projeto Baleia Jubarte necessita de voluntários interessados em participar das ações de conservação, no período de 12 de julho a 14 de novembro, quando os cetáceos estão em águas brasileiras e o acúmulo de trabalho é grande.
As responsabilidades do ecovoluntário no cruzeiro vão desde a preparação do cruzeiro (ajudando a comprar os mantimentos da viagem, por exemplo), ao auxílio para a equipe de pesquisa localizar as baleias ou operação do GPS (equipamento de posicionamento geográfico por satélite).
Tudo depende das habilidades pessoais do participante inscrito. "A gente acaba ajudando as baleias duas vezes: financeiramente ao investir no projeto e na pesquisa para a conservação", observa Ladeira.
Os cruzeiros têm duração de três a quatro dias. A embarcação navega durante todo o dia (aproximadamente 9 horas) e ao entardecer ancora no Arquipélago de Abrolhos. Com chuvas intensas e ventos acima de 20 nós, o cruzeiro pode ser adiado ou cancelado. Cheguei na segunda-feira e fomos abastecer o barco. Na terça, o tempo não permitiu que a gente saísse, comecei a ficar aflito. Achei que ia voltar para São Paulo e perder a razão que me trouxe aqui. Mas afinal tudo deu certo, tivemos três dias maravilhosos, o mar estava calmo e vimos muitas baleias, comemora o ecovoluntário.